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Entre pesquisas, caravelas e pandemias

Relato sobre artigo publicado na revista Caderno de Letras, da UFF, em setembro de 2023: https://periodicos.uff.br/cadernosdeletras/issue/view/2762

A escrita do referido artigo foi um desafio proposto pela minha orientadora Ananda Machado, que também assina o texto. A princípio, pretendia deixar para abordar a necropolítica e a violência contra os povos da floresta só mais para frente. Talvez estivesse adiando o sofrimento inevitável de um mergulho em tema tão pesado. Apesar de ter na escrita uma forma de lidar com meus sentimentos, traumas e pesares, organizando as reflexões e narrativas que me envolvem e de considerar a potência do texto para a transformação do mundo, não tenho como evitar o sofrimento quando pesquiso e escrevo sobre realidades tão brutais.

Meu projeto tem como foco algumas relações entre educação, literatura e os povos da Amazônia. Como ainda estou no primeiro ano, tenho me dedicado à organização do meu arcabouço teórico e metodológico, enquanto faço uma revisão bibliográfica e pesquisas sobre temas diversos, centrais e correlatos. Estou adorando conhecer mais autores indígenas e quilombolas, ao mesmo tempo em que reflito e escrevo sobre pesquisas e trabalhos de campo antigos e recentes. É claro que a violência histórica e atual a que são submetidas as pessoas consideradas descartáveis - vistas como estorvo ou atrapalhando os planos de progresso - está presente o tempo todo. Ainda mais pelo fato de que todo meu esforço intelectual e militante tem sido direcionado à tempos no sentido de buscar entender a crise civilizatória, encontrar e construir alternativas, conceituais e práticas, pontuais e sistêmicas para a superação dessa fase doentia à qual a humanidade foi trazida. Soma-se ainda os eventos catastróficos cada vez mais intensos e recorrentes, consequência da ação predatória desse modo de vida que privilegia alguns poucos enquanto massacra a imensa maioria. Só no início deste mês de setembro. já tivemos um grave terremoto no Marrocos (quase três mil mortos), o ciclone extratropical no Rio Grande Sul (cerca de 50 óbitos) e a incomensurável tempestade na Líbia, com rompimentos de barragens, enchentes e transbordamentos que levaram mais de 20 mil vidas!!! E a inércia que parece impossibilitar a implementação das soluções já encontradas, fazendo inclusive o oposto, mantendo e intensificando a destruição ambiental, o envenenamento de tudo, o genocídio dos povos originários, indígenas, negros e periféricos. Sem falar na persistente violência contra as mulheres e as pessoas LGBTQIA+.

Certo, mas o que isso tem a ver com a protelação em encarar a violência nos estudos da minha tese e o referido artigo que me trouxe de volta ao tema?

Abordei primeiro o contexto de meus estudos porque a perspectiva de meu projeto é, de certa forma, otimista. A leitura que faço da literatura de autoria de pessoas representantes dos povos da floresta é, entre outros aspectos, como uma ferramenta de influencia, onde esses pensadores apresentam ao restante da sociedade suas cosmologias, epistemologias, saberes e práticas que apontam para outros modos de vida. Assim, estava curtindo minha empolgação e encantamento com todo esse conhecimento ancestral que representa, a meu ver, grande esperança para toda a humanidade. No entanto, impossível não identificar, mesmo nesses escritos, denúncias e relatos sobre as inúmeras formas de violência a que estão historicamente submetidos. Mas podemos fazer tudo isso sem perder a alegria. Aliás, essa foi a provocação que me inspirou para a escrita do artigo. Vou reproduzir aqui um trecho em que relato isso:

Krenak então perguntou ao público se alguém sabia, ou intuía, o porquê dos povos originários dessa terra, mesmo com toda violência, massacres e genocídio que seguiram à invasão europeia, mesmo sem perspectivas de saírem vencedores dessa guerra desleal e desproporcional, mesmo com tudo isso, resistiram e ainda resistem, chegando a reverter a queda populacional em meados dos anos 1980 para uma recuperação sensível, mas muito significativa. Como pode? Como conseguiram e conseguem manter-se em luta, fortes, resistentes e resilientes? Após alguns instantes, o grande pensador, filósofo e escritor arremata: “Porque, apesar de tudo, nunca deixamos de viver com alegria!”

Essa reflexão ficou comigo por cerca de um ano, até eu ter contato com o ritual da Tucandeira, do povo Sateré-Mawé. Trata-se de um rito de passagem onde os jovens colocam a mão em uma luva cheia de formigas. Ou seja, um momento de dor e sofrimento controlado, com profundas consequências para os que passam pela experiência. Além de estar desenvolvendo um trabalho com uma comunidade da Terra Indígena Andirá Marau, justamente com os Sateré-Mawé, tive o privilégio de conhecer o Jesiel dos Santos, jovem liderança sateré, representante dessa etnia e de todos os povos indígenas do Amazonas no Conselho Estadual de Educação. Jesiel está terminando seu mestrado e ao invés de usá-lo como informante para a escrita do artigo, convidei meu novo amigo para escrever comigo como coautor. Foi uma experiência incrível e o resultado pode ser verificado diretamente no artigo. Além do Jesiel, agradeço também Ananda Machado, minha orientadora que contribuiu na escrita e revisão do texto.

Bom, chega de spoiler. O fato é que consegui encontrar uma perspectiva positiva e esperançosa, a partir de onde pude adentrar ao pesado tema da necropolítica e sair sem ficar por muito tempo deprimido. Convido você a ler o artigo que, apesar de científico e de conter certa quantidade de citações e referências, foi escrito para ser acessível a todos e todas. Claro que dependendo do quanto o leitor está acostumado com as temáticas, o grau de acesso as múltiplas camadas interpretativas poderá ser diferente. A seguir, o resumo oficial:

As reflexões apresentadas neste artigo propõem um olhar sobre o ritual, como método pedagógico e narrativa literária, empreendido por povos indígenas em perspectivas bastante complexas, entre elas, como práticas que auxiliam esses povos a conviverem com as situações de violência a que são submetidos desde o primeiro contato. E em um mundo dominado pela lógica da necropolítica, onde a violência e a morte fazem parte de estratégias governamentais, não são mais apenas os “de fora” que sofrem as consequências. A angústia e a depressão que acometem as populações, de modo bastante generalizado, são canalizadas para o consumo e para a alienação das causas estruturais do sofrimento em nossa civilização em crise. Podemos aprender, com nossos parentes, como lidar com situações traumáticas sem nos esquivar de suas causas e assim, nos envolver para solucionar coletivamente os grandes desafios contemporâneos.

O título completo com link para o artigo é:

Depois, se puder, comente aqui. Vou adorar saber o que achou.


Boa leitura!


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